18 abril, 2026

A inevitabilidade de continuar

Disseram-me para não me fazer de forte.


Disseram-no algum tempo depois de eu perder uma das minhas maiores fontes de força.
A minha mãe.


Como se existisse um prazo para cair.
Como se a dor tivesse um formato certo.
Como se continuar fosse fingir.


Mas há coisas que não se explicam assim.
A minha força não começou na perda.
Foi construída muito antes.

Por ela.

Nos dias difíceis que ninguém viu,
nas escolhas onde desistir era mais fácil,
na forma como enfrentava a vida — sem ruído, sem fuga.


Quando ela partiu, não levou isso com ela.
Deixou-me com isso.


E eu não inventei nada.
Não improvisei força.
Continuei.


Não porque não doa.
Mas porque parar nunca foi linguagem que me ensinaram.


Disseram-me que o tempo suaviza.
Que a dor acalma.
Não acalma.
Aprofunda.


A minha mãe não ficou para trás.
Ficou em mim.


Na forma como penso quando tudo aperta.
Na forma como decido quando é mais fácil fugir.
Na forma como continuo — mesmo quando ninguém está a ver.


Gosto da solitude da minha forma de sentir.


Não negocio a minha dor para que seja compreendida.
Não a exponho para que seja validada.
Carrego-a.


Porque o amor que recebi não era leve.
Era estruturante.


Não foi feito para momentos fáceis.
Foi feito para isto.


Para quando a ausência é definitiva.
Para quando a saudade não tem solução.


E sei que ela estaria orgulhosa.
Porque é aqui que tudo se revela:
os ensinamentos dela não me afastam da dor —
permitem-me atravessá-la sem me perder.
A domar o que em mim podia destruir-me…
sem nunca precisar de o mostrar ao mundo.


Somos daqueles que não se rendem ao que nos quer quebrar.


E depois há os meus filhos.
Eles não precisam da minha queda.
Precisam da minha presença.


Que eu esteja.
Que responda.
Que seja.
Íntegro. Inteiro.


A vida não me deu espaço para performar fragilidade.
Deu-me responsabilidade.


O amor continua neles.
Ganha corpo, voz, urgência.
É uma linha invisível —
entre quem partiu e quem fica.


Entre o que perdi
e aquilo que não posso falhar.


E ainda assim, há quem insista:
“não te faças de forte.”
Talvez porque há quem só reconheça a dor quando ela é visível.
Talvez porque há quem precise que o outro quebre… para não se sentir sozinho na sua própria quebra.


Mas nem toda a força é máscara.
E nem toda a dor pede testemunhas.
Há dores que se carregam.
Há perdas que nos reconfiguram.
Há forças que não são escolha — são consequência.


Porque amar, às vezes,
não é sentir.
É continuar.


Mesmo quando falta quem te ensinou a fazê-lo.
Por isso, antes de dizeres a alguém que se está a fazer de forte,


responde, sem filtros:
queres mesmo compreender…
ou precisas que ele se desfaça para validares a forma como tu próprio lidas com a dor?"

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